1. Visão geral do HydroStat
O HydroStat é uma ferramenta computacional para análise estatística de dados batimétricos comparáveis. O sistema avalia diferenças verticais entre profundidades de referência e profundidades de check line, seja a partir de pares homólogos já definidos, seja por associação espacial entre dois conjuntos de pontos.
O software transforma dados de entrada em uma síntese estatística rastreável: discrepâncias, tolerâncias verticais, indicadores de tendência central, dispersão, métricas robustas, diagnóstico de normalidade, detecção de valores extremos, gráficos e relatórios. O resultado apoia o controle de qualidade hidrográfico, mas não substitui a análise técnica do levantamento nem a interpretação da origem física das discrepâncias observadas.
2. Estrutura do software
A janela principal apresenta dois fluxos de processamento. A escolha do fluxo define a natureza da entrada, o tipo de pareamento e os produtos gerados.
| Fluxo | Entrada esperada | Função |
|---|---|---|
| Análise Estatística das Discrepâncias | Um arquivo com X, Y, profundidade de referência e profundidade de check line em colunas separadas. | Analisa pares já definidos pelo usuário ou por processamento externo. Nenhuma busca espacial é executada. |
| Análise Estatística das Profundidades | Dois arquivos separados: um de referência e um de check line, cada um com X, Y e Z. | Busca homólogos por vizinho mais próximo dentro de um raio definido e calcula as discrepâncias. |
3. Entradas aceitas e seleção de colunas
O HydroStat aceita arquivos textuais delimitados, planilhas Excel e shapefiles. O usuário seleciona explicitamente as colunas correspondentes às coordenadas planimétricas e às profundidades usadas na comparação.
| Formato | Extensões | Observação |
|---|---|---|
| XYZ ou texto delimitado | .xyz, .txt | Leitura com ou sem cabeçalho. O delimitador é detectado automaticamente (vírgula, tabulação, espaço, ponto-e-vírgula ou pipe). |
| Planilha | .xlsx, .xls | Dados organizados em colunas nomeadas ou genéricas. |
| Shapefile | .shp | Atributos e coordenadas extraídos da geometria pontual. O EPSG é lido automaticamente quando disponível no arquivo. |
4. Fluxo de análise das discrepâncias
Para usar este fluxo, o arquivo de entrada deve conter pares comparáveis em um único arquivo: coordenada X, coordenada Y, profundidade de referência e profundidade de check line em colunas distintas. O HydroStat calcula a discrepância vertical de cada par e aplica as estatísticas sobre a amostra resultante.
- Dif positiva — a profundidade de referência é numericamente maior que a check line no mesmo ponto.
- Dif negativa — a profundidade de referência é numericamente menor que a check line.
- Viés sistemático positivo ou negativo persistente pode indicar desacordo de referência vertical, desacordo de datum ou efeito de maré não corrigido.
5. Fluxo de análise das profundidades
Para usar este fluxo, o usuário dispõe de dois arquivos separados: um conjunto de referência e um conjunto de check line. O HydroStat constrói uma estrutura kd-tree sobre os pontos da check line e associa cada ponto de referência ao seu vizinho mais próximo, desde que a distância planimétrica não ultrapasse o raio de busca definido.
- Raio muito pequeno descarta homólogos válidos e reduz artificialmente a amostra, podendo enviesar os resultados.
- Raio muito grande associa pontos de regiões distintas do fundo, introduzindo variabilidade morfológica como se fosse incerteza de medição.
- O valor adequado depende do espaçamento entre linhas, da densidade de pontos e da geometria do levantamento. Não existe valor universalmente correto.
6. Tolerâncias verticais — IHO S-44 (6.ª ed., 2020)
O HydroStat aplica a fórmula de Incerteza Vertical Total (TVU — Total Vertical Uncertainty) da IHO S-44 para calcular a tolerância de cada ponto individualmente, em função da profundidade de referência e dos coeficientes da ordem selecionada.
| Ordem IHO S-44 | a (m) | b | Exemplo: T para Z = 20 m |
|---|---|---|---|
| Ordem 2 | 1,000 | 0,0230 | √(1,00² + (0,023·20)²) ≈ 1,026 m |
| Ordem 1b | 0,500 | 0,0130 | √(0,50² + (0,013·20)²) ≈ 0,517 m |
| Ordem 1a | 0,500 | 0,0130 | √(0,50² + (0,013·20)²) ≈ 0,517 m |
| Ordem Especial | 0,250 | 0,0075 | √(0,25² + (0,0075·20)²) ≈ 0,257 m |
| Ordem Exclusiva | 0,150 | 0,0075 | √(0,15² + (0,0075·20)²) ≈ 0,160 m |
Referência: IHO (2020). S-44 — IHO Standards for Hydrographic Surveys, 6.ª ed. Monaco: International Hydrographic Organization.
7. Estatísticas calculadas
O núcleo estatístico opera sobre a amostra de discrepâncias. Além das estatísticas descritivas clássicas, o software calcula três indicadores principais — IVT, RMSE e Sigma Robusto — e os compara com a tolerância S-44 calculada para a profundidade média da amostra.
7.1 Estatísticas descritivas
7.2 IVT e RMSE — equivalência matemática
O software calcula IVT e RMSE com as expressões abaixo. Quando o desvio padrão é calculado com divisor n (desvio padrão populacional, ddof = 0), as duas expressões são matematicamente idênticas. Isso decorre diretamente da identidade algébrica entre variância populacional e média dos quadrados.
7.3 Sigma Robusto
O Sigma Robusto combina o MAD (Desvio Absoluto Mediano) escalado com a mediana das discrepâncias. O fator 1,4826 torna o MAD consistente com o desvio padrão gaussiano: para uma distribuição normal, MAD · 1,4826 ≈ σ. A combinação quadrática com a mediana segue a mesma estrutura do IVT/RMSE, substituindo média por mediana e desvio padrão por MAD escalado.
- Média e desvio padrão são estimadores de máxima verossimilhança para a distribuição normal, mas degradam rapidamente na presença de valores extremos (baixo ponto de colapso).
- Mediana e MAD têm ponto de colapso de 50%, ou seja, até metade da amostra pode ser contaminada sem invalidar os estimadores (Rousseeuw & Croux, 1993).
- Em dados batimétricos, valores extremos podem ter origem real (feições, obstáculos) ou operacional (erros de posição, spike de sonar, leituras fora d'água). O Sigma Robusto permite avaliar a dispersão da parte central da distribuição independentemente desses extremos.
Referência: Rousseeuw, P.J. & Croux, C. (1993). Alternatives to the Median Absolute Deviation. Journal of the American Statistical Association, 88(424), 1273–1283.
7.4 Interpretação conjunta
| Indicador | Sensível a extremos? | Captura viés? | Uso técnico |
|---|---|---|---|
| Média (μ) | Sim | Sim — é o viés | Verificar se há tendência vertical sistemática. |
| Desvio padrão amostral (s) | Sim | Não — mede dispersão em torno da média | Dispersão aleatória das discrepâncias. |
| IVT = RMSE | Sim | Sim | Magnitude total das discrepâncias, combinando viés e dispersão. |
| Sigma Robusto (Σ_rob) | Baixa | Sim (via mediana) | Referência para a parte central da distribuição. Comparar com IVT para avaliar influência dos extremos. |
8. Bootstrap, normalidade e outliers
8.1 Bootstrap paramétrico por reamostragem
Quando ativado, o bootstrap calcula intervalos de confiança de 95% para IVT, RMSE e Sigma Robusto por reamostragem com reposição (bootstrap percentil). Para cada métrica, o software verifica se o IC inteiro está contido no intervalo de tolerância calculado para a profundidade média da amostra.
Referência: Efron, B. & Tibshirani, R.J. (1993). An Introduction to the Bootstrap. Chapman & Hall, New York.
8.2 Teste de normalidade
O software executa o teste de Kolmogorov-Smirnov (KS) usando média e desvio padrão estimados a partir da própria amostra. Nesse caso, os parâmetros da distribuição de referência não são conhecidos a priori — são estimados dos dados — configurando uma hipótese composta, não simples.
Referências: Kolmogorov, A.N. (1933). Sulla determinazione empirica di una legge di distribuzione. Giornale dell'Istituto Italiano degli Attuari, 4, 83–91. — Lilliefors, H.W. (1967). On the Kolmogorov-Smirnov test for normality with mean and variance unknown. Journal of the American Statistical Association, 62(318), 399–402.
8.3 Detecção de outliers pelo critério IQR
- O critério IQR é resistente a extremos: Q1 e Q3 não são afetados por valores fora dos limites.
- Para distribuição normal, cerca de 0,7% das observações ficam além dos limites (Tukey, 1977). Em amostras pequenas, a taxa de falsos positivos pode ser maior.
- Um outlier estatístico não é necessariamente um erro. Pode corresponder a uma feição real do fundo, a um ponto isolado em região de alta variabilidade morfológica ou a uma leitura genuinamente anômala do sensor. A decisão de manter ou excluir o ponto depende de análise hidrográfica, não apenas do critério estatístico.
Referência: Tukey, J.W. (1977). Exploratory Data Analysis. Addison-Wesley, Reading, MA.
9. Gráficos diagnósticos
O software gera cinco produtos gráficos por execução: três histogramas, um boxplot e um QQ plot. No fluxo de profundidades, dois mapas adicionais são gerados antes dos gráficos estatísticos.
9.1 Histogramas (três, um por métrica)
Cada histograma mostra a distribuição das discrepâncias com a linha vertical do estimador correspondente (IVT, RMSE ou Sigma Robusto), os limites do IC Bootstrap quando ativado, e os limites da tolerância S-44 calculada para a profundidade média. Isso permite avaliar visualmente se o estimador e seu IC estão contidos dentro da tolerância normativa.
9.2 Boxplot
Representa a mediana, os quartis Q1 e Q3, os limites IQR e os outliers identificados. Complementa o histograma com uma visualização resistente a extremos da posição e dispersão da amostra.
9.3 QQ plot
Compara os quantis empíricos da amostra com os quantis teóricos de uma distribuição normal. Desvios sistemáticos nas caudas indicam leptocurtose ou platicurtose; curvatura global indica assimetria. É o diagnóstico visual mais direto da hipótese de normalidade.
9.4 Mapas de sobreposição e homólogos (fluxo de profundidades)
O mapa de sobreposição mostra a distribuição espacial dos dois conjuntos com os círculos de busca em cada ponto de referência. O mapa de homólogos mostra apenas os pares efetivamente associados. Esses mapas devem ser inspecionados para verificar se o pareamento é espacialmente coerente e se a cobertura dos homólogos representa adequadamente a área analisada.
10. Saídas e relatórios
O HydroStat gera produtos tabulares, gráficos e relatórios cujos nomes dependem do prefixo definido pelo usuário na interface.
| Produto | Fluxo | Conteúdo |
|---|---|---|
| Planilha Excel | Ambos | Uma linha por par: X, Y, Z referência, Z check line, Dif, tolerância calculada, aceitação S-44 (Sim/Não) e marcação de outlier. |
| Relatório PDF | Ambos | Parâmetros de entrada, estatísticas descritivas, IVT, RMSE, Sigma Robusto, IC Bootstrap (se ativado), conformidade S-44, normalidade KS, gráficos embutidos e síntese técnica. |
| Relatório HTML | Ambos | Versão em tela com cartões de indicadores, tabelas e síntese de processamento. |
| Mapas PNG | Profundidades | Mapa de sobreposição dos conjuntos e mapa dos pares homólogos encontrados. Embutidos no PDF. |
| Arquivo de diagnóstico | Em caso de falha | Rastreamento completo do erro para depuração e auditoria. |
11. Limitações e cautelas
- A seleção incorreta das colunas X, Y, profundidade de referência ou profundidade de check line invalida toda a análise.
- A busca espacial pressupõe que os dois arquivos estejam no mesmo sistema de coordenadas métricas e em unidades compatíveis.
- O raio de busca controla a composição da amostra de homólogos e pode alterar significativamente todos os resultados subsequentes.
- IVT e RMSE são matematicamente equivalentes nesta implementação. Divergências expressivas entre os dois valores indicam erro de execução, não diferença real entre os estimadores.
- O teste KS com parâmetros estimados dos dados tem correção de tamanho comprometida. O resultado deve ser interpretado como diagnóstico auxiliar, não como teste rigoroso.
- Outliers pelo critério IQR devem ser investigados no contexto hidrográfico antes de qualquer decisão de exclusão.
- O percentual dentro da tolerância S-44 é condição necessária, não suficiente, para aprovação do levantamento.
12. Boas práticas de uso
- Confirme que os arquivos de entrada estão completos, no mesmo sistema de coordenadas métricas e em unidades compatíveis antes de qualquer processamento.
- Verifique a prévia dos dados exibida na interface antes de confirmar o processamento.
- Selecione as colunas manualmente com atenção, mesmo quando os nomes parecerem óbvios — especialmente em arquivos sem cabeçalho.
- No fluxo de profundidades, defina o raio de busca com base na geometria real do levantamento: espaçamento entre linhas, densidade de pontos e morfologia esperada.
- Inspecione os mapas de sobreposição e homólogos antes de analisar os indicadores estatísticos.
- Interprete IVT (= RMSE), Sigma Robusto, média, desvio padrão e gráficos de forma integrada. Comparar IVT com Sigma Robusto permite avaliar a influência dos extremos na dispersão total.
- Trate os outliers identificados como sinalizadores de investigação, não como descarte automático.
- Preserve planilhas, relatórios e logs de diagnóstico para rastreabilidade, auditoria e comparação futura com novos levantamentos.
13. Créditos e contato
Desenvolvido por Prof. Dr. Ítalo Ferreira — GPHIDRO.
Versão: HydroStat v5.0.2026
Contato: italo.ferreira@ufv.br
Grupo de pesquisa: GPHIDRO — Geodésia e Hidrografia
Site: www.gphidro.com.br