GPHIDRO GEODÉSIA E HIDROGRAFIA
CAVGenerator COTA, ÁREA E VOLUME

Ajuda Técnica do CAVGenerator

Documento técnico de referência para o cálculo de curvas Cota, Área e Volume a partir de modelos raster, com suporte à comparação entre superfícies, geração de relatórios analíticos, ajuste de curvas e produção de artefatos gráficos voltados à avaliação volumétrica de reservatórios, lagos, áreas inundáveis e superfícies topobatimétricas.

Escopo

O CAVGenerator é um módulo especializado em análise volumétrica raster. Sua finalidade é transformar superfícies digitais em tabelas técnicas de cota, área e volume, com rastreabilidade entre parâmetros de entrada, convenção vertical adotada, unidades de apresentação e produtos finais gerados no QGIS.

Curva CAV Análise raster Comparação entre superfícies Relatório técnico

Sumário

1. Visão geral do sistema

O CAVGenerator é uma ferramenta computacional para análise de superfícies raster no contexto de estudos cota, área e volume. O sistema executa, para uma sequência de níveis verticais definidos pelo usuário, o cálculo sucessivo da área associada a cada nível e do volume acumulado correspondente, organizando os resultados em tabela, gráfico e relatório técnico.

Além da curva CAV de um raster principal, o plugin pode processar um segundo raster, permitindo comparação entre superfícies referentes a épocas distintas, cenários distintos ou modelos distintos de um mesmo reservatório. O sistema também admite recorte por máscara poligonal, conversão de unidades, geração de raster de diferença e ajuste matemático das curvas de área e volume.

A estrutura do plugin foi concebida para integrar cálculo numérico, visualização e documentação. Na prática, isso significa que o mesmo conjunto de parâmetros governa o processamento, a tabela analítica, o gráfico final e o relatório HTML emitido ao término da execução.

2. Fundamentação teórica

A curva Cota, Área e Volume é uma representação funcional da relação entre nível vertical, área ocupada e volume acumulado em uma superfície digital. Quando a superfície é representada por um raster, cada célula carrega um valor de elevação ou profundidade, e o problema passa a consistir em avaliar, para um conjunto de níveis de referência, a fração espacial e volumétrica associada ao domínio da superfície em relação a esse nível.

No CAVGenerator, o cálculo é delegado ao algoritmo de superfície e volume do QGIS, aplicado iterativamente a uma sequência de níveis $z$. Em termos conceituais, a operação pode ser interpretada como uma integração discreta sobre a malha raster, em que a área é a soma ponderada das células participantes e o volume é a soma dos prismas elementares definidos entre o valor da célula e o nível analisado.

O valor técnico do CAVGenerator reside na automatização consistente desse processo iterativo, na padronização da apresentação dos resultados e na possibilidade de comparar modelos raster distintos dentro de um mesmo fluxo de trabalho analítico.

3. Estrutura do motor implementado

  • Leitura do raster principal carregado no projeto QGIS.
  • Leitura opcional de um segundo raster para comparação.
  • Leitura opcional de um polígono limite para recorte espacial.
  • Estimativa automática dos valores mínimo e máximo da superfície.
  • Validação do intervalo vertical de processamento.
  • Iteração do algoritmo de superfície e volume para cada nível $z$.
  • Conversão dos resultados para as unidades finais selecionadas.
  • Montagem da tabela CAV em camada temporária do QGIS.
  • Geração do gráfico combinado de área e volume.
  • Ajuste de curvas para área e volume.
  • Emissão de relatório HTML e exportação opcional de CSV.
Quando a comparação entre duas superfícies é ativada, o fluxo é repetido para o segundo raster utilizando a mesma malha de níveis verticais, o que preserva a comparabilidade entre as curvas resultantes.

4. Equações fundamentais

As expressões a seguir sintetizam a lógica efetivamente implementada no plugin e a forma como os resultados são apresentados ao usuário.

$$z_k = z_{max} - k\,\Delta z, \qquad k=0,1,2,\ldots,n$$
Definição das variáveis
  • $z_k$, nível vertical avaliado em cada iteração.
  • $z_{max}$, valor máximo informado para a análise.
  • $\Delta z$, intervalo vertical entre níveis sucessivos.
  • $n$, número de passos definidos pelo intervalo adotado.
$$A_k = \left|A_{QGIS}(z_k)\right|, \qquad V_k = \left|V_{QGIS}(z_k)\right|$$
Cálculo iterativo
  • $A_k$, área obtida no nível $z_k$.
  • $V_k$, volume obtido no nível $z_k$.
  • $A_{QGIS}$ e $V_{QGIS}$, resultados retornados pelo algoritmo Raster Surface Volume do QGIS.
  • O valor absoluto é aplicado na implementação para padronizar a apresentação numérica das saídas.
$$A_k^{(u)} = \frac{A_k}{f_A}, \qquad V_k^{(u)} = \frac{V_k}{f_V}$$
Conversão de unidades
  • $A_k^{(u)}$, área convertida para a unidade escolhida pelo usuário.
  • $V_k^{(u)}$, volume convertido para a unidade escolhida pelo usuário.
  • $f_A$, fator de conversão de área, com valores $1$ para m², $10^4$ para ha e $10^6$ para km².
  • $f_V$, fator de conversão de volume, com valores $1$ para m³ e $10^6$ para hm³.
$$R^2 = 1 - \frac{\sum_{i=1}^{N}(y_i-\hat{y}_i)^2}{\sum_{i=1}^{N}(y_i-\bar{y})^2}$$
Coeficiente de determinação
  • $y_i$, valor observado na curva original.
  • $\hat{y}_i$, valor estimado pela curva ajustada.
  • $\bar{y}$, média amostral da série considerada.
  • $R^2$, medida de aderência do ajuste ao conjunto de pontos calculados.
$$y = a_1x + a_0$$ $$y = a_2x^2 + a_1x + a_0$$ $$y = a_3x^3 + a_2x^2 + a_1x + a_0$$ $$y = m\ln(x) + b$$
Modelos de ajuste disponibilizados
  • Modelos polinomiais de 1º, 2º e 3º graus para área e volume.
  • Modelo logarítmico aplicado apenas quando todos os valores de $x$ são positivos.
$$t = \frac{\bar{x}_1 - \bar{x}_2}{\sqrt{\frac{s_1^2}{n_1}+\frac{s_2^2}{n_2}}}$$
Comparação estatística entre dois rasteres
  • $\bar{x}_1$ e $\bar{x}_2$, médias amostrais dos valores das duas superfícies.
  • $s_1^2$ e $s_2^2$, variâncias amostrais.
  • $n_1$ e $n_2$, tamanhos amostrais.
  • O plugin utiliza a forma de Welch do teste t, admitindo variâncias não necessariamente iguais.

5. Guia de uso, interface e entradas

GrupoParâmetroUnidadeFunção no processamento
Dados principaisRaster principalRasterSuperfície base para o cálculo da curva CAV.
Dados principaisRaster secundárioRasterSuperfície opcional para comparação.
Dados principaisPolígono limiteVetor poligonalMáscara espacial opcional para recorte.
Intervalo verticalZ máximomNível superior da análise.
Intervalo verticalZ mínimomNível inferior da análise.
Intervalo verticalIntervalo de ZmPasso vertical adotado entre níveis sucessivos.
Convenção verticalTipo de dado ZCategoriaDefine a convenção Cota ou Profundidade.
ApresentaçãoUnidade de áreaCategoriaControla apenas a unidade final apresentada.
ApresentaçãoUnidade de volumeCategoriaControla apenas a unidade final apresentada.
RelatórioArquivo de saída HTMLCaminhoDestino do relatório técnico gerado.
RelatórioExportar CSVLógicoGera arquivo da tabela CAV.
ComparaçãoGerar imagem de diferençaLógicoProduz raster da diferença entre as superfícies.
ComparaçãoNível de significância%Controla a interpretação do teste t entre rasteres.
Os cálculos internos de área e volume permanecem em m² e m³. As unidades escolhidas na interface atuam na conversão da apresentação final e não alteram o processamento numérico subjacente.

6. Fluxo computacional da análise

  1. Leitura das estatísticas do raster principal e, quando aplicável, do raster secundário.
  2. Definição do intervalo de análise e verificação de consistência dos limites verticais.
  3. Recorte por máscara poligonal, se essa opção estiver ativada.
  4. Iteração decrescente dos níveis verticais entre $z_{max}$ e $z_{min}$.
  5. Execução do algoritmo de superfície e volume para cada nível.
  6. Conversão das saídas para as unidades selecionadas.
  7. Organização dos resultados em tabela e camada temporária.
  8. Geração do gráfico CAV e, quando solicitado, do relatório HTML e do CSV.
Esse fluxo garante coerência entre tabela, gráfico e relatório, porque todos os produtos derivam exatamente do mesmo vetor de cotas e dos mesmos resultados numéricos produzidos ao longo das iterações.

7. Comparação entre superfícies raster

Quando o segundo raster é habilitado, o plugin calcula uma segunda curva CAV usando a mesma discretização vertical do raster principal. Isso permite comparação direta entre áreas e volumes associados a níveis equivalentes.

O relatório pode incorporar, adicionalmente, uma análise estatística baseada em teste t para duas amostras independentes com variâncias desiguais. No contexto do plugin, essa análise serve como apoio interpretativo à comparação entre as médias das superfícies, especialmente em estudos multitemporais de reservatórios.

A interpretação do teste estatístico deve considerar a natureza espacial dos rasteres. Em superfícies altamente autocorrelacionadas, o p-valor deve ser lido como um indicador auxiliar dentro do fluxo do plugin, e não como substituto de uma análise geoestatística formal.

8. Ajuste de curvas de área e volume

O CAVGenerator calcula ajustes polinomiais de 1º, 2º e 3º graus, além de ajuste logarítmico, para as séries de área e volume produzidas na análise. O objetivo é fornecer expressões analíticas de apoio à interpretação e à interpolação controlada entre níveis.

ModeloAplicaçãoObservação
Polinômio de 1º grauTendência linear globalÚtil apenas em superfícies muito simplificadas.
Polinômio de 2º grauCurvatura moderadaRepresenta bem curvas suaves com variação gradual.
Polinômio de 3º grauCurvatura mais complexaÉ o modelo polinomial mais flexível disponibilizado pelo plugin.
LogarítmicoCrescimento não linearAplicável apenas quando todos os níveis são positivos.
O plugin informa o coeficiente de determinação $R^2$ para cada ajuste, permitindo comparar a aderência relativa entre os modelos testados sobre a mesma série de dados.

9. Saídas geradas e interpretação dos resultados

ProdutoConteúdoLeitura técnica
Tabela CAVValores de $z$, área e volume por nívelBase analítica principal para inspeção dos resultados.
Camada temporária no QGISTabela em memóriaFacilita conferência e integração com outras ferramentas do projeto.
Gráfico CAVCurvas de área e volumePermite leitura simultânea da resposta areal e volumétrica da superfície.
Relatório HTMLTabela, gráfico, metadados e interpretaçãoDocumento técnico consolidado para arquivamento e comunicação.
CSVTabela exportadaÚtil para pós-processamento e integração com planilhas ou scripts externos.
Raster de diferençaDiferença entre duas superfíciesSuporte à leitura espacial de variações entre modelos.
No gráfico principal, as curvas de área e volume são representadas em eixos verticais distintos, compartilhando o mesmo eixo horizontal de níveis $z$. Esse arranjo facilita a avaliação conjunta da resposta morfológica e volumétrica da superfície analisada.

10. Limitações operacionais e condições de uso

  • O raster principal deve estar corretamente carregado e acessível no projeto QGIS.
  • Quando houver máscara poligonal, o limite deve possuir CRS compatível com o raster correspondente.
  • Os valores de $z_{min}$, $z_{max}$ e $\Delta z$ devem ser coerentes com a amplitude real da superfície.
  • O modelo logarítmico somente é ajustado quando todos os níveis avaliados são positivos.
  • A comparação estatística entre rasteres depende da ativação simultânea do segundo raster e do relatório.
  • A imagem de diferença é calculada a partir dos rasteres originais carregados no projeto.
Resultados volumétricos e areais dependem diretamente da qualidade geométrica do raster de entrada, da coerência vertical dos dados e da adequação do sistema de coordenadas. Projetos em coordenadas geográficas tendem a comprometer a interpretação métrica de área e volume.

11. Exemplo prático de uso

Considere um MDT raster de reservatório, já carregado no QGIS, com amplitude vertical entre 612,0 m e 645,0 m. Deseja-se gerar a curva CAV entre 645,0 m e 620,0 m, com passo de 1,0 m, apresentando áreas em hectares e volumes em hm³.

$$z = 645, 644, 643, \ldots, 620\ \text{m}$$

Nesse cenário, o plugin executará uma chamada do algoritmo de superfície e volume para cada nível da sequência, gerando uma tabela ordenada de cotas com respectivas áreas e volumes. Se um segundo raster for informado, a mesma malha vertical será reutilizada para o cálculo comparativo, permitindo inspeção conjunta das curvas e da variação entre superfícies.

Esse procedimento é particularmente útil em estudos de atualização batimétrica, reavaliação de capacidade de armazenamento, análises de assoreamento e consolidação de fichas técnicas de reservatórios.

12. Dicas e boas práticas

  1. Utilize sempre rasteres coerentes com a convenção vertical adotada no estudo.
  2. Revise visualmente o recorte por máscara antes de aceitar a curva final como representativa da área de interesse.
  3. Escolha o intervalo vertical de forma compatível com a resolução analítica desejada.
  4. Para comparação multitemporal, trabalhe com superfícies espacialmente compatíveis e com mesmo referencial vertical.
  5. Use o relatório HTML como documento consolidado de análise, mas preserve também a tabela CSV para verificações independentes.
  6. Interprete os ajustes de curva como instrumentos de apoio analítico e não como substitutos da tabela efetivamente calculada.
A leitura tecnicamente mais segura da curva CAV é sempre conjunta, combinando tabela, gráfico, parâmetros adotados, recorte espacial e conhecimento do processo de geração do raster utilizado como entrada.

Créditos e contato

Desenvolvido por Prof. Ítalo Ferreira.

Em caso de dúvidas, contatar italo.ferreira@ufv.br.